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FORMAÇÃO DE GRUPOS ITINERANTES DE EDUCAÇÃO E CUIDADO EM SAÚDE PARA PESSOAS COM HIPERTENSÃO E DIABETES MELLITUS NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

Capítulo de livro publicado no livro: Tecendo cuidados e semeando saúde: experiências e relatos inspiradores de atenção primária. Para acessa-lo  clique aqui.

DOI: https://doi.org/10.53934/9786599965838-09

Este trabalho foi escrito por:

Isadora Ruth Dantas de Medeiros Santos ; Camila Beatriz Santos Silva; Rafael Mateus Tabosa; Isis Giselle Medeiros da Costa; Vitória Victor Menezes ; Nephtys Verissimo da Silva ; Jéssyka Kallyne Galvão Bezerra ; Raphaela Veloso Rodrigues Dantas; Luana Carla Santana Ribeiro

RESUMO

Introdução: O diabetes mellitus e a hipertensão representam algumas das principais causas de morbimortalidade no Brasil. O Sistema HIPERDIA possui por finalidade monitorar os pacientes acometidos com hipertensão e diabetes, além de proporcionar o tratamento adequado. Dentre seus principais desafios, estão a falta de adesão aos cuidados e ao tratamento, e o atendimento ineficiente dos serviços de Atenção Primária à Saúde, fazendo-se necessária a inclusão de atividades educativas que deem suporte à população. Objetivo: Descrever as experiências vivenciadas por discentes dos Cursos de Nutrição e de Enfermagem, do Grupo Tutorial de Assistência à Saúde em Cuité-PB, do PET-Saúde do CES/UFCG, na implementação de novas estratégias de cuidado e de monitoramento de pessoas com hipertensão e diabetes da comunidade da Unidade Básica de Saúde Raimunda Domingos de Moura. Metodologia: Consiste em um relato de experiência, de abordagem qualitativa, sobre a formação de grupos itinerantes denominados de HIPERDIA em Ação – Cuidando de pessoas com Hipertensão e Diabetes. Resultados: Foram instituídas estratégias de grupos itinerantes, com rodas de conversas sobre temas que agregam ao cuidado de saúde, aferição de pressão arterial, teste de glicemia, avaliação nutricional, lanches saudáveis e brindes educativos, a partir de divulgações na própria comunidade, rádios e mídias digitais. Conclusões: Dessa forma, no contexto da Estratégia Saúde da Família, o enfrentamento da hipertensão e do diabetes, configura-se um grande desafio, fazendo-se necessário lançar mão de novas estratégias de cuidado e de educação em saúde que atendam às necessidades de pessoas e famílias que convivem com essas patologias.

Palavras-chave: Atenção primária à saúde, cuidados de saúde, diabetes mellitus, educação em saúde, hiperdia, hipertensão

INTRODUÇÃO

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) representam uma das principais causas de morbimortalidade na população brasileira, sendo consideradas um grave problema de saúde pública. Dentre estas, ressalta-se a hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus (DM) e cânceres, que apresentam fatores de risco bastante conhecidos, tais como o tabagismo, a alimentação não saudável, o consumo abusivo de bebida alcoólica, bem como a baixa prática de atividade física (1).

No Brasil, a mortalidade por DCNTs equivale a 72% de todas as mortes no mundo, atingindo principalmente famílias de baixa renda e em situações de vulnerabilidade social, sendo a HAS a que apresenta maior índice de prevalência, cerca de 26,3%, enquanto 9,3% dos adultos com idades entre 20 e 79 anos apresentam DM e 1,1 milhão de crianças e adolescentes com menos de 20 anos são diagnosticados com DM 1 (2,3).

Dentre as doenças cardiovasculares, destaca-se a HAS, caracterizada pela elevação nos níveis pressóricos, apresentando pressão arterial sistólica (PAS) nos valores que podem ser maiores ou iguais a 140 mmHg e/ou pressão arterial diastólica (PAD) maior ou igual a 90 mmHg, tendo por causa fatores ambientais, sociais e genéticos ou epigenéticos, e definida por elevação persistente da pressão arterial (PA). Várias são as causas que levam ao desenvolvimento das doenças cardiovasculares, podendo essas serem revertidas ou não, a partir do diagnóstico e mudanças no estilo de vida. Dentre os fatores influentes, destaca-se a hiperglicemia, hiperlipidemia, etilismo, tabagismo, obesidade, má alimentação, sedentarismo e uso de contraceptivos, história familiar de doença crônica não transmissível, idade, sexo e raça, sendo esses três últimos não modificáveis, necessitando de controle a fim de garantir uma boa qualidade de vida (4).

A síndrome metabólica é uma das doenças que se encontra intimamente ligada ao risco cardiovascular aumentado devido à obesidade abdominal, dislipidemia e HAS. Estes fatores compartilham características metabólicas, mecanismos fisiológicos e mediadores inflamatórios, que potencializam as chances de desenvolvimento de doença arterial coronariana (DAC) e Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2). O Diabetes Mellitus é um crescente problema de saúde caracterizado pelo aumento dos índices glicêmicos, sendo resultante do comprometimento na produção e secreção de insulina, bem como na sua atuação nas células (5).

O aumento da prevalência de Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1) e DM2 deve-se a fatores sociais, sedentarismo, transição epidemiológica, transição nutricional, excesso de peso, crescimento, envelhecimento populacional, infecções virais, certas composições da microbiota intestinal e componentes dietéticos (6). Sua diferença consiste no fato de que a DM1 se caracteriza pela destruição das células beta pancreáticas, com taxa de destruição variável e representa 5% dos casos de diabetes, por sua vez, a DM2, representa 90 a 95% dos casos de diabetes e descreve-se pela presença de hiperglicemia associada à deficiência relativa de insulina, correlacionando-se positivamente com sobrepeso/obesidade e inatividade física. Embora a destruição das células beta inicialmente não ocorra, por fim, podem necessitar de insulina, pois o pâncreas irá se sobrecarregar por produzir insulina e não ser utilizada. Na maioria dos casos, o indivíduo apresenta-se assintomático ou oligossintomático, sendo necessária a realização de dosagens laboratoriais de rotina ou o diagnóstico por manifestações de complicação crônica, caracterizadas por sintomas de hiperglicemia como polidipsia, poliúria, emagrecimento inexplicado e polifagia (7).

Ademais, evidencia-se que a intervenção para a obtenção de um maior controle glicêmico é capaz de retardar o aparecimento de complicações crônicas microvasculares, apesar do seu efeito pouco eficaz no que diz respeito à redução da mortalidade por doenças cardiovasculares. Pensando nisso, foi implementado pelo Ministério da Saúde, em 2002, o Plano de Reorganização da Atenção à Hipertensão e à Diabetes Mellitus (HIPERDIA) (8). Suas ações são destinadas à prevenção e à orientação quanto aos cuidados com a HAS e o DM, com o intuito de reduzir a morbimortalidade relacionada a tais doenças crônicas (9).

O sistema do HIPERDIA possui por finalidade monitorar os pacientes, capturando informações, dados clínicos, fatores de risco, presença de complicações e doenças concomitantes, bem como oferecer tratamento por meio da distribuição de medicamentos a todos os cadastrados de forma sistemática e regular. Para que isso ocorra de forma eficaz, faz-se necessário que o profissional da saúde desenvolva um olhar sensível às necessidades da comunidade no momento da desenvoltura de suas atividades, a fim de que o atendimento seja integral e humanizado, contribuindo dessa forma para a qualidade de vida dos usuários de saúde (9).

Um dos principais desafios para o controle glicêmico e da hipertensão, inclui o abandono ao tratamento devido à dificuldade de aderir às mudanças dos hábitos alimentares e estilo de vida, bem como o atendimento inadequado e ineficiente da Atenção Primária à Saúde (APS), que contribui para o aumento substancial do risco de complicações e diminuição na qualidade de vida, fazendo-se necessária a inclusão de atividades educativas que dêem suporte e apoio à população, a fim de auxiliar o público com DCNTs (10).

A fim de fortalecer, reforçar e incentivar o acesso da comunidade aos serviços de APS, instituiu-se o Programa Previne Brasil, por meio da Portaria n°. 2.979, de 12 de novembro de 2019, que vem a propiciar o vínculo com a população e equipe com o intuito de garantir a universalidade do SUS, atendendo assim, por meio do financiamento federal, às necessidades e prioridades em saúde, no âmbito epidemiológico, demográfico, socioeconômico e espacial. O programa conta com registros diários das informações coletadas para monitoramento e avaliação dos indicadores selecionados. Os indicadores 6 e 7 do Programa equivalem à proporção de pessoas com hipertensão, com consulta e pressão arterial aferida no semestre e à proporção de pessoas com diabetes, com consulta e hemoglobina glicada solicitada no semestre, respectivamente, a fim de nortear a tomada de decisões e intervenções de forma eficaz (11).

Entretanto, isso ainda se mostra desafiador devido às dificuldades que o programa enfrenta para ampliar o acesso e promover melhoria na qualidade do atendimento ofertado, a fim de proporcionar melhores experiências da APS, atraindo a população e fazendo com que a busca por uma melhor qualidade de vida seja maior, colocando as pessoas no centro de cuidado. Nesse contexto, insere-se o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) do Centro de Educação e Saúde da Universidade Federal de Campina Grande (CES/UFCG), que tem atuado para contribuir com o monitoramento e vigilância em saúde em unidades básicas de saúde, abrangendo a atenção às pessoas com DCNTs, contando com o apoio de uma equipe de gestores, profissionais de saúde, docentes e discentes de cursos da saúde.

O PET-Saúde referido possui como premissa desenvolver, acompanhar e avaliar o processo das ações/atividades na Atenção Primária à Saúde, com foco nas práticas profissionais de gestão e assistência à saúde voltadas à integração do ensino, serviço e comunidade nos municípios de Cuité, Nova Floresta e aqueles pertencentes à Quarta Região de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde da Paraíba. Um dos objetivos específicos consiste em atuar junto às equipes de saúde no eixo de assistência, com ações referentes à Vigilância em Saúde e Promoção à Saúde, na Atenção Primária à Saúde em Cuité.

Partindo dessa premissa, objetivou-se descrever as experiências vivenciadas por discentes dos Cursos de Nutrição e de Enfermagem, do Grupo Tutorial (GT) de Assistência à Saúde em Cuité-PB, do PET-Saúde do CES/UFCG, na implementação de novas estratégias de cuidado e de monitoramento de pessoas com HAS e DM da comunidade da Unidade Básica de Saúde (UBS) Raimunda Domingos de Moura, de Cuité, Paraíba.

MATERIAL E MÉTODOS

Consiste em um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, de abordagem qualitativa, relacionado às experiências de implementação de novas estratégias de cuidado e de monitoramento de pessoas que convivem com hipertensão e diabetes, a partir da formação de grupos itinerantes denominados de HIPERDIA em Ação – Cuidando de pessoas com Hipertensão e Diabetes. Essa estratégia foi desenvolvida a partir da parceria firmada entre o GT do eixo Assistência à Saúde em Cuité, do PET-Saúde Interprofissionalidade do CES/UFCG, e a UBS Raimunda Domingos de Moura, localizada na cidade de Cuité, no Estado da Paraíba.

O relato de experiência (RE) consiste em uma expressão escrita baseada em vivências que contribuem na produção e conhecimento de variados temas, cujo texto é baseado em vivências acadêmicas e/ou profissional, tendo como principal característica a descrição da intervenção, para que, dessa forma, a sociedade acesse e compreenda determinadas questões, promovendo a formação dos sujeitos dentro da sociedade. Desse modo, o RE tem como objetivo, descrever a experiência que a própria pessoa viveu e também a valorização do esforço acadêmico-científico, por meio do apoio teórico-metodológico, aplicando a crítica-reflexiva baseada no conhecimento científico (12).

O GT do eixo Assistência à saúde do PET-Saúde do CES/UFCG, é constituído por uma equipe interdisciplinar, que possui oito alunos, sendo quatro do Curso de Enfermagem e quatro do Curso de Nutrição, duas preceptoras, sendo uma enfermeira e uma nutricionista da UBS, uma coordenadora geral, professora do Curso de Bacharelado em Enfermagem, e uma tutora da equipe, professora do Curso de Bacharelado em Nutrição. A equipe de saúde da família é formada por uma equipe multiprofissional, onde estão presentes profissionais de diferentes áreas de saúde, a saber, uma enfermeira, técnica de enfermagem, nutricionista, médica, dentista, psicólogo, bem como seis Agentes Comunitários de Saúde (ACS), que fazem toda a diferença no contato com as pessoas da área que a unidade abrange.

No último censo do IBGE (13), a população de Cuité foi estimada em 20.331 habitantes, destes 4.237 cidadãos ativos são assistidos pela UBS Raimunda, que fica localizada em uma região periférica da cidade e atende tanto a região urbana como uma parte da zona rural. Do total de usuários adstritos, 250 apresentam DM e 671 apresentam HAS, estando distribuídos nas microáreas do território, com um possível agravante desse fato de 108 pessoas que apresentam problemas cardíacos e 481 que apresentam sobrepeso.

A necessidade de planejar e realizar estes grupos itinerantes surgiu após a identificação de dificuldades vivenciadas pelos profissionais de saúde da UBS em realizar o cuidado continuado e o monitoramento regular das pessoas com HAS e DM, conforme o preconizado pelo Ministério da Saúde. Após a identificação das fragilidades, realizou-se pesquisa na literatura existente sobre as possibilidades de cuidado a estes grupos de pessoas, bem como de estratégias metodológicas de educação em saúde, a fim de facilitar o acesso à informação e estimular a participação da comunidade nas atividades propostas. Em seguida, foi proposto um calendário de atividades mensais a serem desenvolvidas em diferentes locais do território da UBS, em ambiente aberto e de fácil acesso, que consistiram nos grupos itinerantes chamados de HIPERDIA em Ação.

As ações nestes grupos têm como objetivo realizar a busca ativa de usuários de saúde que apresentem diabetes e/ou hipertensão diagnosticadas ou não, levando em consideração que parte significativa deles não procuram a UBS regularmente para acompanhar os parâmetros de suas doenças e alguns nem mesmo sabem que podem estar com essas medidas elevadas.

A realização das ações aconteceu em parceria com a Secretaria de Saúde do município, a fim de se obter acesso a espaços e equipamentos que fossem distribuídos dentro do território, de forma a atender o máximo de pessoas possíveis, onde a população que talvez não tivesse recebido a visita do ACS com o convite, pudesse ver os preparativos e a ação acontecendo e ter a iniciativa de participar também. Ademais, também foi solicitado por meio da secretaria de transporte, um meio de locomoção para os profissionais de saúde da unidade, visando um melhor aproveitamento do tempo e do espaço, já que também foram solicitadas algumas mesas e cadeiras que também foram transportadas por responsabilidade da secretaria, o que mostra a grande importância da intersetorialização do cuidado à pessoa e à família, e como é importante que todos trabalhem juntos.

As ações começaram no dia 18 de novembro de 2022, e estão previstas de continuar com temáticas diferentes trimestrais, acontecendo uma vez por mês em diferentes pontos do território, para assim conseguir alcançar um número maior de usuários de saúde. Até janeiro de 2023, foram realizadas três ações, uma por mês em local distinto. Os locais são escolhidos com base na necessidade encontrada principalmente pelos ACS, tendo em vista que eles estão inseridos diretamente no território e conhecem melhor suas particularidades e necessidades. A maior parte da equipe da unidade participou das ações (enfermeira, médica, técnica em enfermagem, nutricionista e ACS), além da coordenadora tutora, tutora, preceptoras e alunos de Enfermagem e Nutrição do GT de Assistência do PET-Saúde. Nas ações dos grupos itinerantes, tem ocorrido a participação de 30 a 60 pessoas, e espera-se que esse número aumente mais a cada ação realizada.

Para realizar o convite, os ACS da unidade foram nas casas das pessoas que eles já tinham conhecimento de apresentar diabetes ou hipertensão, e algumas pessoas também ficavam curiosas quando viam toda a equipe reunida em um espaço fora da UBS, o que aumentava ainda mais o público que poderia propagar o que estava sendo passado, e poderiam realizar os exames para verificação da pressão arterial, da glicemia capilar e do estado nutricional. Além disso, realizou-se a divulgação das ações na Rádio 89 FM de Cuité.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O Ministério da Saúde, através do Previne Brasil, busca captar e fortalecer o contato de pessoas com hipertensão e diabetes com os serviços de saúde, com o objetivo de atender e realizar o processo de triagem do paciente, para avaliar se estão em índices aceitáveis, a fim de promover saúde, qualidade de vida e reduzir a morbimortalidade por DCNTs no país (14).

Nesse contexto, como estratégias para solucionar as problemáticas, além do já existente dia específico na unidade básica para as pessoas com HAS e DM, desenvolveu-se o HIPERDIA em Ação – Cuidando de pessoas com Hipertensão e Diabetes, que consiste no grupo itinerante organizado por profissionais da saúde da UBS referida e por membros do GT do PET-Saúde, em locais diversos do território da UBS. A formação desses grupos tem melhorado o acesso das pessoas ao serviço da ESF, assim como a integralidade e a longitudinalidade do cuidado.

De acordo com o Ministério da Saúde, a construção de hábitos saudáveis é um importante meio de recomendação aos tratamentos de pessoas com hipertensão e diabetes, tanto os que já convivem com a doença, como os familiares (15). De semelhante modo, tal estratégia foi também aceita e utilizada pela equipe multiprofissional para as ações, não só com as pessoas já diagnosticadas e seus familiares, mas também com parcela da população que passava pelo local.

As temáticas do primeiro trimestre, de novembro de 2022 a janeiro de 2023, foram sobre prevenção de complicações, a importância do monitoramento regular e de uma alimentação saudável (FOLDER EM APÊNDICE A), levando através de uma roda de conversa e dinâmicas, a ilustração de alimentos que prejudicam a saúde tanto de indivíduos com HAS como daqueles com DM. Em fevereiro de 2023, iniciou-se o segundo trimestre do grupo itinerante, com a temática sobre os benefícios da atividade física e exercícios recomendados para pessoas com hipertensão e diabetes (FOLDER EM APÊNDICE B), com roda de conversa e prática de exercícios guiada por uma educadora física.

Contudo, semanas antes de ocorrerem as ações, eram preparadas formas de atrair o público-alvo, pois já tinham ciência de que seriam encontradas resistências da Comunidade para aderirem aos grupos de educação em saúde. Foram adotadas formas de divulgação que atraíssem a todos, a exemplo da construção de convites distribuídos para os agentes comunitários, a fim de entregarem às pessoas com HAS e DM, bem como, a utilização das redes sociais do município que compartilhavam os cards e a gravação para a rádio da cidade informando toda a programação, fatores como esse foram essenciais, visto que o uso das mídias digitais e sonoras são excelentes formas de auxiliar e conquistar a comunidade (16).

Na Figura 1 abaixo, apresenta-se o grupo de participantes reunidos ao final de uma das ações, os primeiros participantes sendo acolhidos para escuta inicial, as lembrancinhas saudáveis distribuídas ao fim da ação e o momento de triagem com aferição de pressão e teste de glicemia capilar.

Durante as ações, inicialmente, a equipe da UBS e do PET-Saúde realizavam testes de glicemia e a aferição da pressão arterial, além de avaliação nutricional, visando captar a qualidade da alimentação e o Índice de massa corporal (IMC). Diante de alterações nas medidas dos exames, as pessoas eram orientadas a buscar a UBS para agendamento de consulta e, em alguns casos de pico hipertensivo ou elevação glicêmica grave, houve a necessidade de encaminhamento imediato ao serviço hospitalar do município.

Após o momento de triagem, aconteceram momentos educativos e de acolhimento para as pessoas presentes, sendo distribuídos folders informativos e didáticos, cuja temática foi abordada de maneira dialógica em roda de conversa, e esse momento teve como objetivo, estimular a discussão e uma troca de conhecimentos. Nas rodas, as pessoas puderam compartilhar seus sentimentos, dificuldades e vivências no enfrentamento das doenças, assim como esclarecer dúvidas, a partir da realização de jogos de perguntas e respostas e verdadeiro e falso, dentre outras dinâmicas. A Figura 2 a seguir mostra a equipe multiprofissional reunida com integrantes do GT do PET-Saúde, bem como o lanche distribuído e a comunidade participando da roda de conversa. 

Ao final das ações, foram servidos lanches saudáveis e lembrancinhas, que foram adquiridos por meio do departamento de compras da secretaria de saúde municipal e ou por recursos próprios dos integrantes do GT do PET-Saúde. Escolheu-se as opções de lanches de melhor benefício e de fácil acesso, ofertados juntamente com a receita, como salada de frutas, cookies integrais, mix de cereais, e sal de ervas.

Ressalta-se que, para melhores cuidados da saúde, o atendimento em consulta pelo menos duas vezes ao ano por paciente já diagnosticado, são importantes, pois junto com a equipe multiprofissional, os usuários serão avaliados de forma individual quanto à sua situação de saúde e seguimento do tratamento. Ademais, para proporcionar aos trabalhadores comerciais uma atenção à saúde, realizou-se também ações noturnas de outubro rosa e novembro azul, em que se aproveitou a oportunidade para colher informações a respeito da HAS e DM, tanto em sala de espera, como na triagem por algum profissional disponível, ofertando-se atendimentos para aferição de pressão, teste de glicemia capilar e avaliação nutricional, segundo a demanda espontânea. Atendimentos como esses têm corroborado na melhoria dos indicadores 6 e 7 do Programa Previne Brasil, tal como, proporcionou na comunidade um melhor conhecimento sobre as doenças e formas de enfrentamento, aumentando a busca pelo serviço da UBS. Além disso, a equipe multiprofissional junto com o GT 2 do PET-Saúde visualizou também a harmonia do trabalho interdisciplinar em conjunto, que beneficia não só os profissionais, mas toda a população atendida.

 Dentre as dificuldades encontradas, aponta-se o não seguimento do cuidado de alguns usuários de saúde para início ou ajuste do tratamento, por resistência individual. Um exemplo foi um homem de aproximadamente 55 anos, com sinais e sintomas de diabetes, mas sem diagnóstico, que foi encaminhado ao hospital para regulação de alta taxa glicêmica, porém, por falta de entendimento, não retornou à unidade para início do tratamento, o que culminou em busca ativa do ACS responsável ao domicílio desta pessoa. Contudo, o mesmo expressou resistência, relatando que como já foi encaminhado ao hospital, não era necessário voltar a uma unidade, apresentando dificuldades de engajamento. A partir desse caso, houve uma remodelação na estratégia planejada, que está sendo posta em prática, segundo a qual, as pessoas que estiverem com sinais e sintomas sem diagnóstico ou que tiverem necessitando de consulta para monitoramento e ajuste do tratamento, já são direcionados para a marcação da consulta com a enfermeira ou a médica da unidade, além de ser realizada a busca ativa dos usuários (17).

Salienta-se que os grupos de educação e cuidado em saúde itinerantes ampliaram o acesso da população aos cuidados com a hipertensão e o diabetes, sendo captadas pessoas que têm dificuldades em buscar atendimento nas unidades básicas, ou ainda pessoas doentes, mas ainda não diagnosticadas. Além disso, evidencia-se o aumento da adesão e do engajamento das pessoas participantes ao tratamento e ao autocuidado.

Diante de tais relatos, como estudantes dentro de um projeto que visa promover ações em saúde para a população atendida na atenção básica, o desenvolvimento de estratégias como essa é fundamental para o próprio conhecimento científico e para a formação acadêmica, capacitando para intervir futuramente como profissionais de saúde do SUS, uma vez que a experiência prática possibilita a compreensão das potencialidades e das dificuldades de trabalhar no cenário da atenção primária, bem como estimula a criatividade e inovação para criação de projetos semelhantes ou novos, que poderão ser implementados por outros grupos de saúde em diferentes contextos.

CONCLUSÕES

No contexto da APS, o enfrentamento das DCNT, especialmente da HAS e do DM, configura-se um grande desafio e apresenta dificuldades tanto relacionadas à não adesão das pessoas diagnosticadas aos cuidados com a saúde, como referentes aos entraves de acesso ao serviço da ESF. Desse modo, faz-se necessário lançar mão de novas estratégias de cuidado e de educação em saúde que atendam às necessidades de pessoas e famílias que convivem com essas patologias e que possibilitem um melhor manejo dessas condições crônicas multifacetadas, assim como amplie o acesso da população às ações de prevenção de doenças e de promoção da saúde.

Vale ressaltar a importância da desenvoltura das atividades realizadas para a propagação do conhecimento técnico-científico no desenvolvimento de atividades de pesquisa, ensino e extensão, garantindo o crescimento tanto pessoal quanto profissional dos discentes envolvidos, uma vez que as atividades desenvolvidas em grupo nos levam a isto, ao aprofundamento do conhecimento sobre a atuação do nutricionista e do enfermeiro perante a comunidade em serviços de saúde do SUS, proporcionando uma direção a respeito de qual carreira seguir ao final da graduação, bem como um meio para socialização, compartilhamento de ideias e desenvolvimento do trabalho em equipe interdisciplinar, que servirão para atender as necessidades da população.

Além do referido, às experiências vivenciadas possibilitaram o crescimento não somente profissional como também pessoal, sob o ponto de vista da ética e do cuidado humanizado. Por meio das ações voltadas à comunidade e centradas nas necessidades das pessoas, possibilitou-se vivenciar a práxis, a partir da junção da teoria com a prática em ação concreta e transformadora, sendo de suma importância para a formação acadêmica de estudantes de Nutrição e de Enfermagem.

Destarte, o processo de planejamento e de implementação dos grupos itinerantes de HIPERDIA em Ação têm contribuído para a melhora da qualidade de vida e saúde da população adscrita, por meio do estímulo ao engajamento das pessoas que têm hipertensão e diabetes em seu autocuidado, promovendo o seu protagonismo no plano de tratamento. Por conseguinte, o manejo adequado dessas doenças no âmbito da APS pode repercutir na redução de internações hospitalares resultantes de complicações, diminuindo a mortalidade, assim como os gastos com atenção de maior complexidade. Enfatiza-se que as ações realizadas a cada mês vêm ganhando força entre os usuários de saúde e na equipe da UBS, gerando o interesse na população e quebrando barreiras dos que tinham receio de adentrar a unidade de saúde. Há a expectativa de que esse projeto deve permanecer, mesmo após a vigência do PET-Saúde, e ainda conta com a possibilidade de serem criados outros grupos de educação em saúde.

AGRADECIMENTOS
Agradecemos às instituições que contribuíram com as experiências descritas nesta pesquisa, a fim de promover melhorias à assistência em saúde em Cuité, em especial à Prefeitura Municipal de Cuité juntamente com a Secretaria de Saúde do município, bem como ao PET-Saúde do CES/UFCG, pela oportunidade de ampliar nossos conhecimentos ao lado da equipe multiprofissional da UBS Raimunda Domingos de Moura.

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